Projeto apoiado pela UAlg/SEA-EU investiga impactos da mineração no mar profundo
O projeto DEEPMINE-SUB, liderado pelo investigador Caio Ribeiro, do Centro de Ciências do Mar (CCMAR) da Universidade do Algarve, é um dos vencedores da edição de 2026 do Concurso de Iniciação à Investigação Colaborativa UAlg/SEA-EU (Seed Fund). Com um financiamento de 3.000 euros, o projeto irá estudar os potenciais efeitos da libertação de metais associada à mineração do mar profundo.
Oceanógrafo, mestre em Biologia Marinha e doutorado em Oceanografia, Caio Ribeiro é investigador auxiliar no CCMAR, onde integra o grupo de Ecotoxicologia e Oceanografia Química (ECHO). É também professor convidado da UAlg nos cursos de mestrado em Biologia Marinha e de licenciatura em Sistemas Costeiros e Marinhos.
A sua investigação centra-se sobretudo nas áreas da oceanografia química, ecotoxicologia marinha e biogeoquímica. Segundo o investigador, ao longo do seu percurso tem procurado compreender de que forma diferentes contaminantes são transportados no ambiente marinho, incorporados pelos organismos e capazes de produzir efeitos biológicos. Nos últimos anos, tem dedicado especial atenção aos ambientes polares e profundos e aos potenciais impactos ambientais da mineração do mar profundo.
É neste contexto que surge o DEEPMINE-SUB, um projeto que pretende investigar o destino subcelular de metais potencialmente libertados durante atividades de mineração no fundo do oceano. Como explica Caio Ribeiro, o objetivo “é perceber não apenas se esses metais são acumulados por organismos marinhos sentinela, mas também em que partes das células ficam retidos e se são armazenados de forma relativamente segura ou se permanecem associados a componentes celulares mais sensíveis”.
Como esclarece o investigador, esta abordagem permitirá “distinguir a simples acumulação de um metal do seu verdadeiro potencial para provocar toxicidade”. Para isso, o projeto combinará ensaios ecotoxicológicos, análises químicas e técnicas de fracionamento subcelular, estabelecendo uma ligação entre exposição, bioacumulação e efeitos biológicos.
Do fundo do oceano ao interior das células
A mineração do mar profundo poderá libertar partículas e metais para a coluna de água, formando plumas capazes de alcançar áreas para além dos locais diretamente explorados. Apesar do crescente interesse económico nesta atividade, persistem muitas incertezas sobre o comportamento desses metais e os seus efeitos nos organismos marinhos. É precisamente a esta lacuna de conhecimento que o DEEPMINE-SUB procura responder.
De acordo com Caio Ribeiro, grande parte dos estudos existentes avalia apenas a concentração total de metais acumulada nos organismos. No entanto, “esta informação não permite determinar se o metal foi imobilizado de forma segura ou se permanece biologicamente disponível e capaz de causar danos”, esclarece. Ao estudar o destino dos metais no interior das células, o projeto pretende contribuir para uma avaliação de risco ambiental mais realista.
Uma colaboração entre Portugal, Espanha e Brasil
O projeto reúne competências complementares da Universidade do Algarve, da Universidade de Cádis, que integra com a UAlg e mais sete universidades a Aliança da Universidade Europeia dos Mares — SEA-EU, e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, parceira externa global da Aliança.
No CCMAR/UAlg serão realizados os ensaios de exposição, a avaliação das respostas ecotoxicológicas e parte da caracterização química e biológica. A Universidade do Estado do Rio de Janeiro contribuirá com a sua experiência em oceanografia e biogeoquímica, enquanto a Universidade de Cádis participará com competências nas áreas da contaminação marinha e da análise da distribuição subcelular de metais.
Segundo o investigador, as três instituições irão ainda colaborar no planeamento experimental, na interpretação dos resultados, na formação de jovens investigadores e na preparação de publicações científicas. Esta colaboração permitirá, assim, reforçar a ligação científica entre Portugal, Espanha e Brasil.
Do ponto de vista do impacto, os resultados poderão contribuir para identificar biomarcadores e organismos sentinela adequados para futuros programas de monitorização ambiental. Na perspetiva de Caio Ribeiro, o projeto poderá também fornecer evidência científica útil para apoiar avaliações de impacto, medidas de proteção ambiental e decisões relacionadas com uma atividade ainda rodeada de incertezas.
“Antes de avançarmos para uma exploração em grande escala dos recursos minerais do oceano profundo, precisamos de compreender melhor os possíveis efeitos sobre ecossistemas que são vulneráveis, pouco conhecidos e, em muitos casos, de recuperação extremamente lenta”, salienta.
Primeiro passo para projetos mais ambiciosos
O apoio do Seed Fund permitirá realizar os primeiros ensaios, adquirir os materiais necessários, promover a mobilidade entre as equipas e gerar dados preliminares. Caio Ribeiro explica que estes primeiros resultados serão importantes para “testar a metodologia, formar estudantes e jovens investigadores e preparar candidaturas a programas nacionais e internacionais de maior dimensão”.
Embora se trate de um financiamento inicial, o investigador considera que o Seed Fund poderá ter “um efeito multiplicador”, criando as bases para uma linha de investigação conjunta a longo prazo entre as três instituições.
Promovido pela Universidade do Algarve no âmbito da Aliança SEA-EU, o Concurso de Iniciação à Investigação Colaborativa pretende incentivar os investigadores da UAlg a estabelecer novas parcerias com investigadores das restantes universidades SEA-EU e dos parceiros externos da Aliança.
Para Caio Ribeiro, ser um dos vencedores da edição de 2026 representa não só o reconhecimento de uma ideia científica em que acredita, mas também uma oportunidade para aproximar instituições ligadas ao seu percurso. O investigador destaca ainda a importância de apoiar projetos em fase inicial, recordando que muitas colaborações científicas relevantes começam com uma experiência de pequena escala, uma primeira mobilidade ou um conjunto inicial de dados.
“Este apoio dá-nos a oportunidade de iniciar esse caminho e construir algo mais ambicioso para o futuro”, conclui.
Créditos da imagem: UAlg
Ademar Dias




